As mãos do meu avô...

 

 

Durante a sua primeira infância, meu avô que naturalmente, sê-lo para mim, nesta sua fase de vida, não poderia, já se mostrava por natureza, disciplinado; a ser assim, quando jovem, por muito tempo, com muita dedicação, estudara Filosofia, Teologia e Grego; entre estas e outras disciplinas, a última Flor do Lácio com suas tenazes e perfumadas gavinhas o envolveu suscitando-lhe uma grande paixão, qual seja o amor sem limites às letras. Chama à parte, chamaram-no de outra direção; quem o fez, dando-lhe uma outra direção profissional, foi a nobilíssima senhora do Largo de São Francisco... Ela, com a reta intenção de graduá-lo em direito, foi encontrá-lo a galgar os últimos degraus de uma escada que o conduziria à igreja; assim, surpreendido, deixou ele de servir ao altar da Eucaristia para servir-se das leis a mando da justiça; com efeito, se a Igreja, ainda que universal, perdeu um pouco, muito ganhou o mundo laico...

Meu avô, quando jovem adulto - já fora dito, avô meu, não poderia ser – por conveniência sua, se manteve em uma postura grave que o conteve em uma confortável redoma... Assim, por bem se acostumar com aquele hábito, costumou-se a não se ver mal durante todos aqueles seus dias... Agora que os anos lhe outorgaram a prerrogativa de ser avô, mais lhe seria bem ajustada e aproveitada aquela postura, entretanto, não tanto por sua conveniência, e sim por necessidade premente, que se tornou constante, deixou ele de manter aquele seu modo grave, ainda que muito desejasse não tê-lo perdido...

De seu grande amor ao saber, minguada parte herdei...

No início da minha infância, meu vovô, já bem idoso, novo membro da nossa família se tornou, ainda que jamais deixasse de sê-lo; isso porque veio morar conosco.

Todos os dias, a manhã mal desperta, despertava meu vovozinho para ser conduzido do seu quarto de dormir à vigília, que com toda paciência, o acolhia, pois, haveria mesmo de ser paciente, para aguardar o despertar vagaroso dele.

         Sempre que por frequente e fácil desejo, alguém quisesse vê-lo, ou por ele ser visto, muita vez, ou até quase sempre, era possível encontrá-lo sentado à varanda de nossa casa; para até lá chegar, ele o fazia com dificuldade e resignação, pois sem outro modo à sua escolha, tolerava ser arrastado pelos seus lentos passos que mal alcançavam a extensão de um dos ladrilhos do piso, sobre o qual estava ele a caminhar, ainda que esses nem bem ultrapassavam o comprimento de um de seus pés; mas, para compensar esta árdua jornada, sempre de bom grado, a sua cadeira de balanço o esperava para lhe oferecer uma boa parte da sua própria indolência. O certo é que lá chegando – à varanda – permanecia, sob os olhos carinhosos da sua família, a cada, um dia após o outro, a contar com a boa parte do pouco tempo de vida que lhe restava... Lá, ele encontrava tempo e disposição para se lembrar de esquecer do presente, tempo fugaz, que a cada instante se entrega ao passado voraz, logo, não haveria razão para se ocupar com o futuro; aí sim! Com os seus pensamentos muito livres e pouco prestos, prestava ele mais atenção à sua própria memória para encontrar no pretérito, o tempo perdido...

Suas histórias se confundiam com ele, e eram muitas; longas e repetidas, porém, muitas interessantes, ainda que todas enfadonhas. Ao ouvir suas narrativas compridas, curta não haveria de ser a paciência dos ouvidos, logo, tarefa árdua, não deixava de ser, evitada a todo custo, por quase todos da família. Por tantas vezes meu vovô tanto se empenhar contando a sua vida – que há anos longa já era – a atenção daqueles que o ouviam, servia de referência para que ele os classificasse entre pessoas boas e más. As boas, para sê-lo, algum tanto de boa vontade, haveriam de lhe demonstrar, ouvindo-o com atenção. Minha mãe, filha dele, estava entre as boas; eu estava entre as melhores, por conseguinte, da casa, para ele, eu era o mais atencioso. Atencioso daqueles que por recompensa, nada pedia, pois de sobra dava-me meu avô o seu amor e carinho incondicionais; logo, entre todos os parentes seus, que compúnhamos o nosso lar, tornei-me a pessoa mais nova, que das suas velhas histórias mais sabia. Vez ou outra, admirava as suas raras reflexões sobre temas novos, o que dava-me mais serenidade, para suportar as suas velhas e repetidas memórias. Por tanto desejar manter esta disposição, quando a paciência ameaçava-me escapar, ainda que só pelos meus olhos, meus ouvidos protegiam-me, pois sempre se deleitavam ouvindo o timbre de sua voz – a do meu avô – pastosa, rouca e grave; misteriosamente, ela dava-me paz... Eloquentes eram suas mãos magras, encarquilhadas e naturalmente, frágeis; com movimentos lentos e trêmulos, elas sublinhavam com força as palavras de seus contos. Seus trejeitos faciais exprimiam a dor, a alegria, o pavor, etc... de acordo com as exigências dos personagens que povoavam as suas narrativas. Ouvindo-o com tanta frequência e por tão longo tempo, a cada dia, admirava sempre e mais o seu talento para contar histórias. Por julgar ter herdado dele o mesmo dom, esperava alcançar igual sucesso; assim, tão logo iniciei-me no ofício de lidar com letras, despertou-se em mim, o gosto para escrever e contá-las.  A princípio, eu buscava os ouvidos da minha mãe, os do meu pai e os dos meus irmãos, e é claro, antes de recorrer a esses, aos do meu avô, recorria com maior frequência; mas, só a paciência, ou antes, não só a paciência, mas, mais a gratidão do meu vovozinho, sustentavam a atenção que eu esperava, ou melhor, aquela que muito desejava. Minhas composições e narrativas eram pueris, pertenciam aos dias das crianças, com efeito, menor valor tinham para os do meu vovô; entretanto, ele as escutava com todo desvelo; fazia-me perguntas, pedia para eu repetir uma ou outra parte já narrada, e com frequência fazia comentários edificantes; por vez, até desnecessários, mas sempre ricos de admiração; a intenção do vovô era agradar-me; finalmente, me elogiava muito.

Por tanta certeza de ser, pelo meu avô, bem ouvido; ouvidos dos meus colegas fui buscar; a princípio, faltando-lhes experiência, ou, sobrando-lhes complacência, deram-me algum crédito, dispondo-se às minhas ordens os ouvidos seus. Com este bom começo, não muito tempo esperei para descobrir o que o meu avô jamais encontrara – escutar alguém contar um caso, nem sempre é ouvir um caso que esse alguém está a contar – de posse dessa verdadeira descoberta, que para meu alento, às escondidas, bem poderia continuar, logo deduzi que as minhas histórias mal contadas, com efeito, não bem ouvidas, quando não provocavam alguma gastura, tornavam-se indigestas; por quase mais nada esperar, em tempo curto, determinei mudar-lhes os ingredientes; por esse feito, se efeito não vi, entendi que a deficiência estava nos seus temperos; assim, para não ter mais dúvida, outra escolha não tive; desisti das histórias contadas... Das contadas por mim.

Desisti de contá-las – as minhas histórias – não para o meu avô, mas, para todos os outros ouvintes; então, em um determinado dia, ou antes, em uma determinada noite de lua cheia, estava meu avô no seu cantinho da varanda, quando quis lhe falar sobre esse astro; isto porque na escola, a professora nos falara – aos alunos – do Sol, das estrelas, dos planetas, da Terra e de seu satélite natural, a lua. Naqueles dias, eu estava despedindo-me da minha infância e recebendo a minha adolescência, que chegara trazendo-me de presente, a vaidade e os sonhos... E foi assim, à noite, em um dia de lua cheia, que falei ao meu avô:

Vôzinho, você acha a lua bonita? Ele, a ela, voltou os seus olhos, e os descansou por alguns instantes, naquelas distantes e prateadas planícies, e seguida, voltando-os para mim, respondeu-me:

– Creio que é o corpo celeste mais lindo do universo; sempre gostei muito da lua!

Fiquei muito contente com a sua resposta, resposta mais iluminada que essa para dar luz à sequência da minha história, não desejaria... Assim, continuei:

A lua entre nosso planeta e o nosso Sol está presa. Fala-se que ela se mantém nessa posição, à custa do equilíbrio de forças mantido entre seu pai e sua irmã, o Sol e Terra. Nenhum a deseja; ambos a rechaçam; assim, para evitá-la, recorrem a um expediente paradoxal. Neste momento da minha narrativa, por minha imperdoável vaidade ou por simples descuido, julguei necessário explicar ao meu avô, os significados das palavras rechaçar e paradoxal; creio que ele aceitou a minha impertinência e desprezou a minha imprudência. Sob a sua benevolência – a do meu avô – assim continuei: eles atraem esse indesejável astro usando o seu poder gravitacional; essa contenda é antiga e assim é justificada: o Sol poderia, usando de sua “onipotência”, atrair a lua e consumi-la em sua fornalha incandescente, mas, sendo pai zeloso, teme pela segurança de sua filha, a Terra; esta, sendo irmã desnaturada, não quer acolher o seu satélite natural; então, a rixa sicut erat in principio* vai se perpetuando in saecula saeculorum**. A lua, por sua vez, sob claro acinte, tenta privar a Terra da luz de seu pai, para tanto, mete-se entre os dois provocando esporádicos eclipses; em outros momentos, ou antes, periodicamente, a cada vinte e oito dias, tenta afogar sua irmã elevando o nível dos mares. Tudo isso, ela faz à distância, mantendo sempre uma de suas faces oculta. Se pudéssemos observá-la de perto, ficaríamos assustados, pois a sua face, a que ela nos apresenta, é toda encarquilhada, cheia de crateras, ressecada, repleta de poeira, enfim, a lua é muito feia. Meu vovô olhou-me, deu lá seu sorrisinho e disse-me:

– Meu netinho, você também é filho da Terra, ainda assim, quase nada entende o seu avô, ou até o mal conhece – refiro-me ao Sol – e muito pouco compreende a sua tia – a Lua – creio que aquele, o seu avô, por ser o senhor da luz e das trevas, jamais pensou em queimar a sua própria filha – a Lua – A Terra e a sua irmã não têm lume próprio; o Sol por ter criado o dia e noite, enquanto a Terra descansa, ele ilumina a lua, e ela, refletindo a luz de seu próprio pai, não a retém só para si, prefere dividi-la com sua irmã Terra, cobrindo-a com seu o manto luminoso sem lhe quebrar o repouso...

Eis uma história verdadeira que há a mais de meio século encantou-me, especialmente por que dela participei, e dela, fui o maior beneficiado, visto que mais frutos perenes dela colhi. Agora, já adulto, as minhas lembranças de criança, para a minha grande felicidade, ainda estão presentes, e hão de continuar, ainda que eu chegue à idade decrépita.

De lá para cá, ou seja, a partir da minha iniciação no mundo das letras, raramente dou de frente com alguém disposto a escutar as minhas histórias; quando isso acontece, às vezes, penso em contá-las, mas, lembra-me a gastura por conta de outras que contara no passado, logo, me é mais seguro, fazer-me de ouvinte. Assim tenho administrado esse recalque...

Nos dias de hoje, estou recorrendo a outro modo de contar histórias – trata-se da forma escrita – Penso que algum êxito hei de ter, pois, antes de levá-las ao prelo, as leio sem deixar de relê-las várias outras vezes; submeto-as ao jugo de outrem, sobretudo, ao dos gramáticos que se fazem representantes das gramáticas, que sendo femininas, maior alento me dão, pois ao pé de mim, sempre bem mais aceitas são as mulheres... Assim, estas e aqueles, podem tirar o excesso de açúcar dos meus textos, quando doce não lhes faltam; também, tão bem podem acrescentar-lhes sal se estão insossos; e ainda, sempre têm eles – as gramáticas e gramáticos – à mão, uma ou mais especiarias, assim, terão habilidade tanto quanto liberdade para temperar meus textos a gosto; e mais, os meus escritos antes de caminharem à luz, aos verdadeiros amigos, os entrego, pois esses a desejar estão o meu bem, logo não querem me ver exposto ao ridículo, para tanto, preferem embolar algumas páginas minhas a ver-me de cara amarrotada; e mais ainda, posso tanto retocá-los que perdem a sua originalidade, com isso terão que estar novamente diante dos críticos; finalmente, após todos os reparos e sem nenhum receio, permito que sejam dados à luz.

Cara leitora, se chegaste até aqui, desgaste não te causei com minhas palavras, a ser assim, isto posso dizer: agradeço-te por me teres cedido os teus ouvidos, se ouvido por ti, foi esse relato que está logo acima deste parágrafo.

 

 *  - sicut erat in principio, como era no princípio.

** - in saecula saeculorum, por todos os séculos dos séculos.

 

PS - Fico-te muito obrigado pela tua visita; se leres mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da tua atenção.

 

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